A Cultura da Solidão

“É impossível ser feliz sozinho.” – Wave, Tom Jobim

Ultimamente tenho percebido muitos posts que dizem que antes de você ser feliz com alguém, você precisa ser feliz sozinho, e se ninguém vier, está tudo bem. Ok, entendo o raciocínio de que antes de estar com alguém, precisamos estar bem conosco mesmos. Esse é o princípio do amar ao próximo como a si mesmo.

MAS…

Como sempre tem um mas em tudo, esses dias eu andei analisando essa onda de que todo o amor do mundo tem de ser voltado para nós mesmos, sempre eu, eu, EU, EU SOZINHO… Ninguém percebeu que tem alguma coisa errada nisso aí não?

No post anterior, em resposta a um artigo sobre a dependência emocional, eu abordei a questão de como ela tem sido utilizada como ferramenta para incutir na consciência das pessoas que qualquer tipo de afeição mais duradoura que se possa ter por alguém gera pretexto para que ela entre em cena obrigando as pessoas a mergulharem numa independência ilusória, que não condiz com a real essência humana, afinal, o homem foi feito com o objetivo primordial de RELACIONAR-SE. Primeiro, relacionar-se com o Eterno. Quando o Criador percebeu que o homem estava, se sentia só, criou a mulher para ser companheira, ou seja, para se relacionar com seu semelhante.

E agora eu pergunto, mais uma vez: Quantos relacionamentos na sociedade contemporânea têm alguma perspectiva de serem duradouros? Quantos de nós estamos dispostos a nos doar em prol de um relacionamento, em prol de alguém, a fim de que esse relacionamento seja frutífero e perene?

Um dos meus autores prediletos, C.S.Lewis em seu livro Cartas de Um Diabo ao Seu Aprendiz observa que as pessoas se relacionam pelos motivos errados e se casam por razões equivocadas e, justamente quando o Amor deveria entrar em cena, elas se separam porque o encanto acabou. Sim, há uma enorme diferença entre o encanto de estar apaixonado e o Amor que faz com que um relacionamento dure a vida inteira.

O que isso tem a ver com o título do post?

Ora, só para refrescar um pouco a memória, uma das maiores questões abordadas atualmente é sobre como estamos cada vez mais conectados e cada vez mais distantes. Sim, ao ponto de mãe e filha, morando na mesma casa, se comunicarem basicamente só pela internet do celular. Não tem uma semana que este caso foi relatado na televisão. Eu vejo amigos, muitos amigos, postando textos lindos falando sobre o amor próprio, sobre ser feliz consigo mesmo… Alguns eu sei que foram meio que indiretas, porque eu confesso, volta e meia eu reclamo um bocado da solidão… Tá… eu reclamo MUITO da solidão… Mas nesse momento, eu compreendo que a minha condição me é muito mais favorável do que eu poderia supor. Eu convivo bem comigo mesma, afinal, sou única do jeito que sou, virtudes e defeitos, mas o fato de eu estar sozinha, pelo menos nesse momento, me proporciona uma visão mais clara de tudo o que acontece, e uma consciência ainda maior de como a solidão nos é IMPOSTA. No meu caso, estar sozinha é uma opção, porque não vou desperdiçar meu tempo com relacionamentos que eu sei que serão infrutíferos, mas isso em momento algum me privou da minha capacidade de amar, e se possível, ainda aprender a amar incondicionalmente. Não do jeito que Jesus me amou… ainda estou longe de alcançar esse patamar de perfeição, mas eu tento. Não posso dizer que consigo, mas tento.

Diferente disso, é o modo como somos induzidos a pensar que para ser feliz com alguém (e aqui eu incluo não apenas relacionamentos homem/mulher, mas também relacionamentos de amizades e relacionamentos familiares, cada um com seu amor característico), precisamos ser o centro da felicidade, e para encontrar essa “felicidade” precisamos nos afastar, principalmente emocionalmente, das pessoas ao nosso redor, das pessoas que nos querem bem. E assim, cada vez mais isolados em nossas ilhas de busca de si mesmo, nos afastamos da nossa essência que é nos relacionar com o outro. Até porque, podemos aprender muito sobre nós mesmos com o outro. Verdades que machucam, virtudes que jamais saberíamos reconhecer em nós mesmos… Precisamos voltar a aprender a olhar nos olhos, a investir tempo em longas conversas no fim de tarde, seja no portão de casa, à beira do mar ou à volta da mesa… Precisamos reconectar nossas almas, nossos sonhos, nossos pensamentos e opiniões, por mais divergentes que sejam. Precisamos voltar a sentir.

Quando cedemos à ilusão de acharmos que para fazer alguém feliz, precisamos nos afastar emocionalmente dessa pessoa, ficamos mais vulneráveis. E, vulneráveis, sucumbimos a toda e qualquer imitação de relacionamento que nos é imposta, sem questionar, porque estamos tão desesperados e perdidos no centro da nossa solidão, que passamos a acreditar que qualquer engodo que se passe por amor é válido, por mais doentio que seja. Os relacionamentos, principalmente relacionamentos entre homens e mulheres são tão essenciais para a existência humana, que são os primeiros a serem atacados por essa e outras filosofias inúteis, tais como “ninguém é de ninguém”, “amor sem compromisso”… Isso não existe!!!!! Se essas maneiras de pensar fossem saudáveis, não teríamos tantas pessoas sofrendo de ansiedade, depressão e trocentos outros males que nos assolam porque estamos emocionalmente vulneráveis e desprotegidos.

Amor requer compromisso, e compromissos exigem sacrifícios que ferem ao nosso ego. Mas a sociedade incutiu em nossas mentes que não devemos nos sacrificar por causa alguma a não ser por nós mesmos. E com isso cometemos o maior e pior sacrifício de todos: o suicídio emocional. E eu posso garantir, essa é a pior dor que pode existir. Ainda pior do que a dor de amar.

Amar dói. E por isso é uma decisão. Impregnada de sentimento, fato, mas ainda assim uma escolha.

“Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em passatempos e pequenos confortos, evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo.

Mas nesse esquife – seguro, sombrio, imóvel, sufocante – ele irá mudar. Não será quebrado, mas vai tornar-se inquebrável, impenetrável, irredimível.

A alternativa para a tragédia, ou pelo menos para o risco da tragédia é a danação. O único lugar fora do céu onde você pode manter-se perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o inferno”.

– C. S. Lewis. “Os Quatro Amores.”

Só para lembrar, quem disse que NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ, foi o próprio Criador do Universo e do homem.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s