A Ilusão da Independência

http://nathanqueija.com/2015/08/17/sindromedopequenoprincipe/

Eu confesso que quando li o título e as primeiras frases do artigo no link acima, eu fiquei muito indignada, senti-me ultrajada até, não apenas pelo fato de O Pequeno Príncipe ser uma das minhas obras prediletas, mas também por já ter ouvido uma pessoa, incompetente para saber sustentar um relacionamento, usar a dependência emocional como pretexto para me acusar de seus fracassos emocionais. Mas para minha felicidade, tomei tempo para reler e tentar compreender o que o autor quis dizer ao acusar o Pequeno Príncipe de ser emocionalmente dependente, e depois que compreendi seus argumentos, certamente modificou completamente a intenção deste post que se propõe ser uma resposta ao artigo. No entanto, manterei a linha de raciocínio, agora tomando como base o artigo que eu pretendia contra-argumentar.

Tomo-o, agora como base, para apresentar a causa que gerou as reflexões que ele argumenta no texto, o motivo de termos uma geração desesperada e emocionalmente doente: A Ilusão da Independência. E essa ilusão começa já no Éden, oferecida pela Serpente, que também aparece na obra mencionada. Nos primórdios nós tínhamos um relacionamento sadio, o coração do homem era preenchido naturalmente pela alegria de uma inocência que lhe era peculiar, como crianças. Até o momento em que fomos seduzidos pelo desejo de termos mais do que precisávamos e enganados pela ideia de que poderíamos conseguí-lo por nós mesmos. Achamos que não precisávamos mais do relacionamento com O Pai, e que poderíamos ser independentes. E desde então, buscamos recuperar esse vínculo que foi perdido com coisas efêmeras.

A minha revolta com o termo “dependência emocional” é em como ele é normalmente aplicado para reforçar essa ideia de independência, quando na verdade, as pessoas deveriam ser induzidas a pensarem na co-dependência, ou seja, todo ser humano precisa um do outro. Se não fosse assim, a mulher não teria sido criada para estar junto com o homem. Penso que a pior cegueira em que o homem pode estar mergulhado é a ideia de ser autossuficiente. E quando acreditamos que podemos ser e fazer tudo sozinhos, esse é o momento em que escancaramos as portas para a solidão, e com isso, nos apegamos às coisas efêmeras para preencher o vazio que inconscientemente permitimos que se apoderasse de nós.

Somos levados a acreditar que para sermos independentes não podemos e não devemos precisar de ninguém. Quando achamos que não precisamos de ninguém, nos isolamos, quando nos isolamos, a solidão nos consome, e quando somos consumidos pela solidão, tentamos desesperadamente encontrar algo que nos tire dela. Uma coisa é apreciar a solitude e usá-la a seu favor. Outra coisa, é passar muito tempo sozinho e esquecer-se de que não é bom que o homem esteja só. Infelizmente, vivemos tempos em que esquecemos completamente desse fato, e nos perdemos em relacionamentos privados de responsabilidade mútua, onde aqueles que são conscientes de sua responsabilidade para com o outro são rotulados de dependentes emocionais, porque já não sabemos mais como nos relacionarmos. Esquecemos que relacionamentos são vias de mão dupla, esquecemos que relacionamentos demandam investimento de energia, afeto, comunicação… E sempre damos um jeito de acusar de dependência quem investe mais, por não sermos capazes de admitir nossa incompetência em retribuir o afeto que nos é confiado.

E nesse ponto eu faço coro com o autor do artigo, que não se pode controlar a vida alheia. Contudo, existe uma diferença abissal entre cuidado e desejo de controle e, lamentavelmente, o discernimento dessa diferença parece andar bastante nebuloso nas relações hoje em dia. Anda-se tão temeroso da tal “dependência emocional”, que o menor sinal de zelo é tomado como desejo de controle. É como se tivessem borrado todos os traços que definem e dão forma aos relacionamentos, que já não se sabe mais distinguir o que é doentio do que não é, e assim, pega-se tudo e joga-se no mesmo saco, e continuamos nos isolando. Continuamos mergulhando em solidão, acreditando sermos completamente independentes, quando na verdade, a única coisa que pode nos manter vivos é a consciência de que somos seres co-dependentes e precisamos uns dos outros para sobreviver.

Ontem eu estava conversando com um amigo justamente sobre isso. Sobre como essa “cultura da independência” nos isola e nos expõe às doenças emocionais. Sobre como a anulação da família como célula matter da sociedade, nos torna vulneráveis e facilmente destruídos. E assim vivemos, nesse ciclo doentio de isolamento e busca por conforto… Se observarmos bem, não há ninguém que não sofra de algum tipo de dependência emocional. Todos nós precisamos de um porto seguro no qual possamos repousar. Mas ainda insistimos em achar que podemos ser independentes do Criador… Enquanto formos rebeldes, sempre buscaremos conforto no que jamais poderá nos confortar.

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2 Comments

  1. Oi Clara! Boa noite. Obrigado pelo retorno. Li sua resposta e para ser sincero não encontrei muita discordância com o que eu pretendo com o texto. Me corrija se eu estiver errado, mas se eu entendi bem o seu contra-argumento diz que a independência é uma ilusão. Eu acredito nisso também. Não defendi a independência autossuficiente como uma solução para o problema. Na verdade acredito que esse extremo de autossuficiência esconde também um certo tipo de dependência de si mesmo, que pra mim só piora a questão. É outro extremo. Doente também. Tanto que em alguns momentos do texto eu explicitei isso. Acredito que somos seres comunitários e sendo assim precisamos uns dos outros. Isso envolve sim relacionamentos que são cuidados. A minha crítica é quando se constrói a vida em cima de algo finito que pode se dissipar a qualquer momento. E daí vem o desespero. Penso que somos seres finitos e insuficientes (logo dependentes) e sendo assim nós não conseguimos a partir de nós mesmos encontrar o porto seguro como você diz no seu texto. Há quem discorde e pense que na nossa própria razão temos condições de alcançar essa estabilidade, mas eu, assim como você (pelo que entendi da sua resposta) acredito que a solução para isso está além de nós e eu terminei o artigo dizendo isso. Depender da finitude do próximo é doença. Depender da finitude de si mesmo também. São dois extremos que escondem a mesma raiz. Acredito que a minha crítica está em um extremo e a sua está em outro.

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    • Oi, Nathan! Então, eu ia te dar uma bronca no meu post, mas depois que parei para ler com calma, entendi a sua colocação e isso mudou um pouco o teor da minha publicação.

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