Memórias de Um Anjo

Memórias de Um Anjo

Eu me lembro…

Quando antes da aurora do
tempo eu ainda servia diante do Criador…

Como é bom contemplar a
Sua face. Como é bom ser parte de Sua glória!

Até que um dia…

O Criador pediu-me para
descer à terra e viver como um humano vive, servi-Lo como O serve um humano…

É tão diferente…

Lá no Céu a música é
sempre sublime e arrebatadora, elevando a alma e preenchendo-a de regozijo
profundo e sem fim. Mas aqui… Verdade que há alguns momentos em que a música
daqui chega a ser parecida com a de Lá, mas não é a mesma coisa… E estes
momentos são raros.

É tão estranho ser
humano… no meu caso humana… Isto porque Deus me deu um corpo de mulher… É
tão complicado entender suas paixões, seus desamores e afetos. E pior ainda é
tentar ser como um deles.

Às vezes me pergunto: Como
o Amado conseguiu? Eu ainda sinto as minhas asas. Por esta razão eu só consigo dormir deitado, ou melhor, deitada de bruços…E, quando à noite não consigo dormir, velo pelo sono da humanidade no silêncio do meu amor. E isto é bem comum… Na eternidade não precisamos dormir.

Mas eu ainda me lembro…

Das cores, indescritíveis em palavras humanas, da eterna alvorada celestial, da adoração constante ao Cordeiro Amado… Ah! Que saudade do meu Lar! Que saudade de estar aos pés do Criador, contemplar Sua glória e santidade, prostra-me aos Seus pés com o louvor que Lhe é devido. Porque só o Senhor é Santo, Santo, Santo, e só o Cordeiro é digno de toda honra e adoração.

E as flores? E os animais?? E as paisagens??? Ah! O que o Criador fez aqui é apenas uma leve sombra do que há na eternidade! Se as águas que ainda permanecem intocadas pela cobiça destrutiva da raça a que, momentaneamente, pertenço são de beleza sem par; imagine como são as águas que correm diante do trono do Grande Eu Sou!! Sua criação aqui é como se fosse um quadro pintado do que há na eternidade… Um quadro onde foi necessário escolher apenas algumas das milhares de cores existentes na realidade.

Ah! Que saudade do meu lugar! O que me conforta é saber que em breve voltarei para Casa. Para a minha verdadeira casa. Mas a razão de o Criador me enviar, foi para que eu compreendesse Seu tão grande amor pelos humanos. Esse Amor incomparável que motivou o Amado a tornar-se um deles. Amor que levou o Filho a ser castigado pelo erro de todos.

Como partiu meu coração aquele dia…

Eu ainda estava ao lado do Pai. Eu pude ver a tristeza estampada em Seu olhar. Como foi penoso… Eu ainda era contado como um de Seus anjos lá na eternidade. Eu queria ter sido o anjo enviado para consolar o Cordeiro, mas o Pai não me deu permissão. Eu sabia que se Ele e o Filho quisessem, poderiam acabar com aquela covardia, poderiam fulminar aqueles algozes com um só olhar!…

Eu não compreendi… Não entendi porque o Amado precisava sofrer daquela forma… Por algum tempo recusei-me a compreender a razão de tanto Amor… Este amor é tão profundo… Mais profundo do que a aurora do tempo, que a mente humana é incapaz de assimilar. A imensidão deste Amor é tão grande que se o traidor a Ele tivesse pedido perdão Ele o perdoaria… Não só perdoaria, como perdoou. Ao traidor e a todos aqueles que dEle escarneceram, que Lhe cuspiram, bateram, humilharam, chicotearam… Chega!!! Não quero mais lembrar-me desta cena! É por demais dolorosa! Nós e toda a Criação protestamos diante de toda aquela crueldade, mas de nada adiantou… Era a vontade do Pai e quem éramos nós para questioná-la?…

Ah!… Mas foi feliz o dia em que o Filho regressou!!!! Que grande festa fizemos, pois sua Glória agora é maior do que antes de Ele tornar-se humano. O Cordeiro tinha de estar frente à frente com a Morte para resgatar o que sempre foi Seu. E Ele venceu aquela horrorosa!! Só o que eu não sabia, é que tudo o que havia acontecido era para dar ao homem tamanho presente… ou melhor, devolver, né, porque o homem foi criado para ser eterno, como o Criador o é.

Mas o que isto tudo tem a ver com a minha estadia aqui? Muita coisa…

Mesmo compreendendo o plano do Criador, por muito tempo eu me neguei a aceitar tamanha injustiça com o Filho. Até porque, se um dia comecei a existir, foi exatamente por causa do Amado, pois para Ele fui criado e por Ele passei a existir. Então um dia, o Criador, muito benigno e paciente, já cansado de me explicar inúmeras vezes a razão da redenção, me enviou à terra a fim de que eu pudesse experimentar o Amor, um pouquinho só daquele Amor que deu vida a uma humanidade inteira e que lava a alma daqueles que abrem o seu coração para Ele habitar. E quando vi, e vivi como humano, digo, humana, pude entender que a razão deste Amor imenso é porque sem ele é impossível respirar. Se o Criador não amasse os humanos, e não desse o Inocente pelos que praticam coisas erradas, pobres homens! Vagueariam até hoje sem rumo! E quer saber? Os humanos têm um privilégio que nós, anjos, jamais teremos. Poder voltar-se ao Criador e chamá-lo Pai.

Vocês homens têm uma riqueza que nenhuma outra criatura tem, e o que ainda insiste em intrigar-me é: Por quê são tolos o suficiente para recusar tanto Amor? E vejo que, mesmo na pele de um humano, há muitas coisas que eu jamais compreenderei. Mas me conforta saber que todo aquele Sacrifício não foi em vão! E também o fato de, mesmo não podendo mais ter a mesma alegria de estar constantemente diante da face do Criador, hoje, como humana, posso ter o privilégio de chamá-Lo Aba! Meu Pai! E tenho certeza de voltar a o meu Lar.

Ao meu verdadeiro Lar!

Clara Maria Cristina Borges

Niterói, 28 de Abril de 2006

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